Bacia do Rio Verde III

Rio Verde

As águas minerais … como não falar delas!!

ÁGUAS MINERAIS LOCALIZADAS BACIA DO RIO VERDE

A bacia do rio Verde abriga as principais estâncias de águas minerais do Estado de Minas Gerais. Nesta região estão localizadas as Estâncias Hidrominerais de Caxambu, São Lourenço, Cambuquira, Marimbeiro, Lambari e Águas de Contendas. Além das estâncias hidrominerais existem alguns outros empreendimentos autorizados a envasar águas minerais.

Em consulta ao banco de dados do Departamento Nacional da Produção Mineral – DNPM – SIGMINE, realizada em 04/07/2009, constata-se que existem, na bacia do rio Verde, 14 processos de direitos minerários para águas minerais que estão na fase de concessão de lavra e 5 na fase de requerimento de lavra.

ESTÂNCIA HIDROMINERAL DE CAXAMBU

A Estância Hidromineral de Caxambu possui, dentro dos limites do Manifesto de Mina, 13 pontos de surgências de água subterrânea, sendo todos captados por poços rasos. As fontes D. Izabel e Conde D’Eu estão situadas próximas, sob um mesmo fontanário, na margem direita do canal do ribeirão Bengo. As demais fontes estão situadas na margem esquerda. Ao longo do leito do ribeirão para montante, a partir da portaria do Parque, existem as seguintes fontes: Dona Leopoldina, Duque de Saxe, Beleza, D. Pedro, Viotti, Venâncio, Mayrink 1, 2 e 3 e Ernestina Guedes. A décima terceira surgência corresponde a um poço tubular, que apresenta jorros intermitentes e por isto é conhecido como gêiser. Todas as águas são carbogasosas com diferenças nas suas vazões e composição química, o que as diferenciam nos seus diversos usos, dentre eles as aplicações crenoterápicas, os banhos hidrotermais e o envase industrial.

As águas das fontes Mayrink 1, 2 e 3, por serem mais leves e menos mineralizadas são utilizadas na indústria de envase e comercialmente denominadas Água Mineral Caxambu. Em outras épocas foram também aproveitadas às águas das fontes Viotti e D. Pedro. As outras fontes são disponibilizadas ao público no Parque das Águas.

Neste relatório, procura-se resgatar todas as informações existentes, tendo como fonte de informações os trabalhos realizados pela CPRM/COMIG, entre os anos de 1993 e 1999, contidos na publicação Projeto Circuito das Águas (1999), no trabalho realizado pela Fundação Gorceix (FG 2001) elaborado com o objetivo de definir as áreas de proteção ambiental do Parque das Águas de Caxambu e no Plano de Aproveitamento Econômico da Indústria de Envase executado pela Carmo e Delgado (2006)

HISTÓRICO

As águas minerais de Caxambu são conhecidas desde 1772, quando foram descobertas pelos escravos da fazenda Caxambu, que as denominavam Águas Santas. No início do século XIX houve verdadeiras romarias ao local das fontes, onde as pessoas se instalavam em palhoças, o que fez surgir, por volta de 1830 a 1840, um tipo de aldeia. Em 1841, por ordem judicial, esta aldeia, repleta de lázaros, foi incendiada. Somente em 1850 é que foram erguidas as primeiras casas, que posteriormente se multiplicaram até constituir a vila de Nossa Senhora dos Remédios de Caxambu, atualmente Caxambu (Lemos, 1998).

Em 1873 foi nomeada uma comissão de membros da Academia Imperial de Medicina para analisar as águas minerais de Caxambu, cujos resultados foram publicados em 1874. Em 1888, Souza Lima vistoriou as obras de saneamento que estavam sendo implantadas, tais como canalização do ribeirão Bengo e instalação de banheiros públicos. Novamente, em 1890, outra comissão da Academia Nacional de Medicina realizou novas análises das águas. No início do século XX, outras obras foram executadas, com melhorias no parque e nas captações, incluindo novas fontes. No período entre 1907 a 1914, diversos estudos físico-químicos foram realizados, com destaque para as análises de Alfred Schaeffer (1914), que se tornaram referência da qualidade das águas por todo o século.

Monat (1894, in Lemos, 1998), descreve com razoável precisão o processo mineralizador das águas e a sistemática de captação das fontes, demonstrando a intercomunicação das águas das fontes e as providências tomadas para isolá-las.

Caxambu, devido à sua localização geográfica e por possuir maior número de fontes e diversidade de águas, sempre foi mais investigada e explorada que suas co-irmãs do Circuito das Águas, à exceção, talvez, de São Lourenço.

CARACTERIZAÇÃO DOS SISTEMAS AQUIFEROS LOCAIS

Na área da Estância Hidromineral de Caxambu as águas subterrâneas percolam por dois tipos principais de aquiferos: um de natureza granular, com porosidade primária, e outro do tipo fissurado, onde a circulação e o armazenamento da água se fazem em porosidade de natureza secundária, desenvolvida sobre as rochas pelos eventos tectônicos.

ÁREA DE RECARGA DO AQUIFERO DE CAXAMBU

A recarga dos aquiferos, granular e fissurado, ocorre por infiltração pluvial direta nas áreas topograficamente mais elevadas e escoa em sub-superfície, por linhas de fluxos convergentes até o nível de base local, marcado pelo leito do ribeirão Bengo.

A principal área de recarga está situada no Morro Caxambu, devido à presença da intrusão alcalina, que se constitui no mais expressivo meio de circulação e mineralização das águas captadas no parque.

Estudos isotópicos desenvolvidos pela Fundação Gorceix para a Comig em 2002, indicam que existe uma pequena mistura nas águas captadas nas fontes hidrominerais, de águas mais profundas com águas de circulação sub-superficial. As amostras das fontes hidrominerais, similares entre si, mostram baixos conteúdos isotópicos, enquanto que o conjunto das amostras de águas comuns tem valores mais elevados de 18O e 2H, sugerindo águas de origem diferenciada quanto aos seus locais de infiltração.

CARACTERIZAÇÃO DAS FONTES DO PARQUE DAS ÁGUAS DE CAXAMBU

As águas minerais que ocorrem na Estância Hidromineral de Caxambu estão assim associadas, principalmente, ao aquifero do tipo fraturado em rocha gnáissica, possivelmente milonitizada e preenchida por brechas alcalinas, sobreposto por sedimentos aluvionares de granulometria variada e por uma camada de argila com matéria orgânica, com até 8,0 m de espessura, conforme se pode visualizar no Perfil hidrogeológico.

No Parque das Águas encontra-se cadastradas um total de 12 captações de água mineral. As captações, sempre próximas uma das outras, ocorrem junto aos respectivos fontanários, exceto a fonte Beleza, que é captada a 50 m do mesmo.

O padrão construtivo das captações segue um mesmo modelo, por meio de escavações rasas, retirando-se o pacote de sedimentos até atingir a rocha sã, onde é cravada um tubo cerâmico que conduz a água até o fontanário. Consta da literatura que a profundidade perfurada fica entre 6,0 e 10 m, excetuando-se a fonte Beleza que atingiu 45 m. Na unidade de envasamento são utilizadas as águas provenientes das fonte Mayrink 1, 2 e 3, escolha que pode ser atribuída ao fato de se tratarem de águas mais leves e menos mineralizadas.

Das onze fontes captadas, excluída a Conde d’Eu, verifica-se que as vazões variam de 0, 042 a 5,66 m³/h. As medidas de vazões obtidas neste trabalho mostram-se, muitas vezes, abaixo daquelas realizadas em estudos anteriores, inclusive abaixo das medições da CPRM, em 1996 Este  fato precisa ser mais bem avaliado, com medições sistemáticas ao longo de um ano hidrológico, pois este decréscimo pode ter diversas origens, tais como: variações climáticas sazonais, variações em função do conteúdo de gás carbônico, variações devido ao regime de bombeamento para o envase ou mesmo podem estar indicando uma diminuição de volume do fluxo subterrâneo.

As vazões das fontes Mayrink são as que apresentam maiores variações, como observado nas medições realizadas pela CPRM, de 1993 a 1996 e Fundação Gorceix em 2001. Provavelmente, estas variações são devidas a metodologia de medição. Desta forma, estes dados não devem ser considerados na estimativa de vazão, servindo apenas de referência. A distribuição das respectivas vazões para 1941 foi feita proporcionalmente à medição de 2000, já que o dado disponível considera a vazão total das fontes Mayrink.

Para a caracterização hidroquímica das fontes do Parque das Águas de Caxambu foram utilizados os dados levantados pela Fundação Gorceix. O trabalho citado levanta dados de Shaeffer (1914), onde se encontram registradas as primeiras medidas de pH, de temperatura e de radioatividade, mostrando águas fracamente ácidas, de baixa temperatura e baixa a média radioatividade na fonte. Naquela oportunidade, Schaeffer separou as águas, segundo os resultados das análises, em duas classes:

  1. Águas alcalino-gasosas: fontes D. Pedro, Viotti, Mayrink 1, Mayrink 2, Dona Leopoldina; e
  2. Águas alcalino-gasosas-ferruginosas: fontes D. Izabel, Conde d’Eu, Beleza e Duque de Saxe.

Das águas da primeira classe, a fonte Dona Leopoldina é a mais rica em gás carbônico e álcalis, seguida, decrescentemente pelas fontes D. Pedro, Viotti, Mayrink 1 e Mayrink 2. Nesta classificação não é citada a fonte Mayrink 3. As águas da segunda classe apresentavam redução do teor de ferro da D. Izabel para a Duque de Saxe, conforme a ordem acima listada, que não contempla as águas das fontes Venâncio e Ernestina Guedes, na época não captadas.

Os resultados das análises físico-químicas mais recentes, efetuadas para as fontes da área do Parque das Águas de Caxambu, confirmam o agrupamento feito por Shaeffer (1914).

Finalmente, é importante referenciar os estudos isotópicos realizados em 2001 pela Fundação Gorceix onde conclui-se que as águas mais rasas que permeiam o Morro Caxambu, considerando uma condutividade hidráulica de 10-4 cm/s e as dimensões deste aqüífero, devem ter idades de ordem de 10 a 20 anos. Às águas mineralizadas, de circulação mais profunda, podem ser atribuídas idades superiores, pois o sistema estrutural da intrusão é compatível com modelo de circulação muito profunda, apesar de não termos no local, águas termais, com temperaturas acima de 36 ºC.

Fonte: Plano Diretor da Bacia do Rio  Verde IGAM/SEMAD/ 2009/CONSÓRCIO ECOPLAN – LUME
Consolidado por: Geólogo João César Carmo

 

Posted by: Paulinho Barão Tags: Posted date:21 de maio de 2014 | Sem comentários

Sobre o autor

Paulinho Barão
Paulinho Barão

Paulo Maciel Junior. Engenheiro, ex Secretário de Meio ambiente de Belo Horizonte, ex Diretor da Fundação Estadual de Meio Ambiente e Diretor da LUME Estratégia Ambiental Ltda.

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